quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Emerson Merhy em três nascimentos. Entrevista por: Demétrio Rocha Pereira e Dayane Caetano

Entrevista por: Demétrio Rocha Pereira e Dayane Caetano

Segundo piso de um barco que ronrona pelo rio Negro, rumo Manaus. Dois gravadores sobre uma mesa improvisada. De costas para um varal de redes que se esgrimam ao vento, Emerson Elias Merhy desfia uma narrativa de si. “Nasci em 1948, renasci em 1968 e vou nascer de novo nos anos 1990.”
Segunda vez foi aos 19 anos, quando ele entrou na Universidade de São Paulo (USP) sob inspirações familiares de virar médico e, como médico, compor uma elite profissional atinente à sua formação escolar. Mas em 68 fervia a luta contra a ditadura e os acordos MEC-USAID, que vinham sujeitar a educação brasileira a padrões estadunidenses. Um arquétipo de doutor bem-sucedido vai sendo abortado em favor de um parto carimbado pela militância.
Já no primeiro ano de Medicina, Merhy se torna membro do Centro Acadêmico e participa dos movimentos grevistas na USP. Nesse trânsito pela faculdade, ele conhece a professora Maria Cecília Ferro Donnangelo, uma das cientistas sociais mais influentes para a saúde coletiva no país. Em parceria com Cecilia, a turma de Merhy, que um ano antes sofrera trotes “violentíssimos”, organiza uma ida até o Vale do Ribeira, onde 110 calouros realizam uma pesquisa sobre a nutrição das crianças da região rural mais pobre do estado.
“Ali eu aprendo que aquilo que eu imaginava que era uma doença, um corpo que não funcionava direito, na realidade era um fenômeno social.” Ali nasce “um homem de esquerda - não de um partido de esquerda, mas aquele que põe a sua vida na ideia de que todas as vidas valem a pena e na defesa da diferença, mas não da desigualdade.”
Um homem de esquerda se definia também pelo engajamento em grupos clandestinos. Merhy se une à Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, mas desconfia da luta armada como ferramenta política ao se fazer professor, em aulas de Biologia na periferia de São Paulo, e participante das lutas de operários e das mulheres contra a carestia. O curso de Medicina vai a segundo plano.
“Eu detestava a escola médica. Fui inventando uma escola médica para mim. Fazia o básico para passar nas matérias que eu não gostava. Não tinha dificuldades em passar. Faltava o máximo que podia naquelas aulas chatas e só saboreava o que eu gostava.”
No final do curso, Merhy chega a saborear a psiquiatria, mas se descobre incompatível com a especialização dentro do manicômio, optando em seguida pela residência em Medicina Preventiva e Social e uma especialização em saúde pública. Um concurso lhe devolve, agora como médico sanitarista, para a periferia paulistana, e a reforma sanitária passa a ser rascunhada ao lado de colegas como David Capistrano, Eduardo Jorge e José Rubens, com quem Merhy funda a revista Saúde em Debate e o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (CEBES). Em seis meses, a Saúde em Debate conquista 5 mil apoiadores. “Nós não sabíamos que existia isso no Brasil. A revista funcionou como dispositivo de potencialização. Isso vai ser um elemento vital, vai desenhando minha vida todinha nesse processo.”
No mestrado, a orientação de Cecília, que morre em um acidente em janeiro de 1983, não alcança a defesa da dissertação. “Vou defender em novembro, numa situação muito difícil para todos nós, alunos e amigos dela”. A orientação de Cecília se estende, no entanto, por toda esta segunda vida de Merhy, que se muda para Campinas, convidado a reformular o curso de Medicina da PUC ao lado de interventores progressistas, alinhados à Teologia da Libertação: o internato passa a ser na rede municipal, e a prática clínica será aprendida nos postos de saúde, cujas equipes serão formadas por moradores do bairro. “Os alunos iam do primeiro ao quinto ano sempre trabalhando nas redes de serviço. Clínica do Cuidado dentro dos postos, dentro das casas, equipe multiprofissional no levantamento epidemiológico dos grupos vulneráveis… Íamos inventando, inspirados pela experiência da rede básica. Íamos inventando um SUS.”

O barco se agita no andar de baixo. Manaus é próxima e já se avista, e nossos companheiros de viagem negociam uma última praia, para uns últimos mergulhos antes de nos despedirmos do Negro. É por essas alturas do rio que Merhy assume a direção da rede pública da região de Campinas. Com Luiz Carlos de Oliveira Cecílio e Gastão Wagner, ele funda um coletivo na Unicamp que amplia a reforma das práticas de cuidado e a militância junto aos movimentos populares e sindical. Fundado o Partido dos Trabalhadores (PT), surge a possibilidade de experimentações em busca da democratização e do controle social dos serviços ao longo dos anos 1980.
Um mutirão nacional em defesa da saúde pública garante avanços no chegar da Constituinte, mas Merhy se frustra com a “resiliência conservadora” das universidades e, na década de seu terceiro nascimento, ele se envolverá diretamente com as experiências de governos populares em cidades como Porto Alegre, Campinas, São Paulo, Belo Horizonte, Ipatinga e Santos.
Estamos por atracar numa margem deserta enquanto Merhy narra a sua terceira vida, mergulhado no cotidiano dos trabalhadores de saúde: “Cumpro o mínimo exigido na universidade, e todo o tempo que me sobra eu vou para essas experiências, onde sou presenteado pelos trabalhadores, que eram criativos, fabricavam coisas sem pedir licença para ninguém. Serei tão afetado por eles que vou escrever muito sobre a ideia de que o trabalho cotidiano é uma micropolítica, e que os trabalhadores são patrimônio de trabalho vivo, em ato. Inventores sistemáticos do cotidiano. Vou fazer uma inversão completa da minha concepção do trabalho em saúde, que deixa de ser definida pela lógica do capital e passa a ser um lugar de micropolítica, de disputa cotidiana, de éticas, de potências.”

A ideia do cuidado como acontecimento reata Merhy ao problema da formação. Ele participa da Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico (Cinaem), que, apesar de “não ir pra frente”, engatilha a criação de núcleos acadêmicos de micropolítica do trabalho e cuidado em saúde e aproxima Merhy da Rede Unida.
Nesta terceira vida, de homem-rede, expressão de nascimentos vários, Merhy ata nós que pedem conexão. Ele se verte ouvido - e escuta: diferentes saberes, caixas de ferramentas, regimes de verdade, sinais que vêm da rua. Vidas que valem a pena. “E eu me sinto muito bem porque toda a produção teórica que a gente tem feito, e toda a nossa prática na vida militante, persegue a ideia de que cada um é uma multidão em rede.” Barco parado, som de gente na água, últimos mergulhos em dois gravadores: “Eu sou uma multidão em rede. Cada um de vocês é uma multidão em rede. E nós estamos sempre em produção.”

Emerson Merhy em três nascimentos

FONTE:
http://www.redegovernocolaborativo.org.br/noticias/emerson-merhy-em-tres-nascimentos

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Interferências estético-conceituais em ambiências e questões para pensamento-pesquisa por Alexandre Henz






Algumas notas abertas – sem muita pretensão didática porque as frestas foram costuradas na conversa – são pequenos problemas desdobrados em um encontro com a linha de pesquisaMicropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde (UFRJ) em setembro de 2014. As discussões arrastaram o tema: Interferências estético-conceituais em ambiências e questões para pensamento-pesquisa[1]. As anotações podem, talvez, ajudar em um começo de conversa acerca destes problemas. Parti de uma distinção – que não é uma oposição, trata-se de uma tensão – entre a noção (Erika Inforsato) de intervenção e a de interferência[2]. Seria preciso pensar asinterferências ao modo das ondas de rádio, ondas curtas. No trabalho pensamos e “queremos intervenções, processos e produtos – ainda que o privilégio ora esteja no processo ora no produto – e acontecem tantas interferências, em muitas direções..no sentido de uma intromissão: uma onda que, eventualmente, em suas oscilações, frequenta outra onda, ao estar, por instantes, na mesma frequência que a outra – ela pode gerar ressonâncias, contágios, acordes acordos fugidios.. Episodicamente.. É uma relação não programada e inevitável, tanto quanto o é o fim inesperado desta justaposição. Um ocupa o outro: simplesmente ocupação, porque seus movimentos ondulatórios assim o exigem.”. A dificuldade da ideia de intervenção, como tradicionalmente pensada, é amarrotar, aplicando certos modelos, ideologemas, verdades, simbolizações, vontades. Há também uma função missionária, sacerdotal na universidade e nos serviços que pretendem levar a luz civilizatória.. Nesse jogo a  noção de intervenção convoca e pode amarrotar os casos, as experiências. Há delicadezas, principalmente iniciais, há também sustos que interessam, precisa ver a cada vez.. Interferências podem invocar, são elementos fortemente críticos, já são plásticas, podem ser flexíveis, no sentido que elas podem se colocar a serviço do caso, não amarrotar o caso, elas podem, interessam, quando procuram os diferenciais da situação. (Luiz Orlandi) Uma intervenção simplificadora, simplista, pode ser aquela que incidesobre a complicação dos casos, das experiências, dos equipamentos, das ruas, incide ali uma ordenação que acachapa a complicação. Então o que faço? Vou agir e ao mesmo tempo sustentar uma espécie de dúvida metódica (termo de Descartes) acerca do modo mais interessante de interferir.. Outro problema: Há todo um voluntarismo que pode enredar as ações ou interferências. Há a também a questão do “dar certo”  – sempre ligados a modelos e parâmetros que são postos mais ou menos, mas não muito, fora de foco –  e uma demanda de controle da interferência. Quantas vezes um suposto domínio de si nos levou a situações pouquíssimas interessantes?. Como imaginar que se possa preparar, uma interferência com um tiro único, sem agenciar de novo, escavar mais embaixo, e, se não “deu agora”, desconfiar de sua estratégia, e, se deu bem demais também desconfiar.. D.H. Lawrence em seu livro Estudos sobre a literatura clássica americana escreveu: “(…) o que achamos que fazemos não importa muito. Na verdade nunca sabemos realmente o que estamos fazendo. (…) Somos os atores, nunca inteiramente os autores de nossos próprios atos ou obras..” . Isso pode se relacionar com a máxima: “interferir” para conhecer – ao modo de Lourau e Lapassade – em espaços e equipamentos.. Interferir também nas nossas frequências e frequentações habituais (ideias, hábitos e..) e produzir pensamento. Produzir pesquisas compartilhadas com serviços, trabalhadores e co-produzir rebatimentos inesperados sobre nós mesmos. Não se trata de um leviano vale tudo, ainda que a leveza não esteja excluída, ela é imprescindível, mas, sobretudo há a necessidade de permanecer na superfície, na dobra, na pele, acompanhar os efeitos de verdade, o verossímil (não se trata da verdade) acreditar em forças na experiência, em tons, ser superficial por profundidade (Nietzsche).
QUESTÃO – Há certo INVOLUNTARISMO que interessa e dificuldades nas INTERFERÊNCIAS.
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Outra questão correlata: Nas interferências estético-políticas pode haver um apelo fácil ao “já sabido”, sensacional, ao espetacular ou ao sentimentalismo. Interessa falar também do convite forte à autopromoção, à busca de sucesso e “gerenciamento empresarial de si” na universidade, nas artes, nos serviços e etc – que podem ser diferentes (interessa interferir com essa diferença) das experimentações, de sustentar um trabalho e pesquisar. Hoje a lógica da empresa (que não está em um único lugar) é um gás espalhado que coloniza o que chamamos de “nosso desejo”. É antes de tudo um modo de fazer que coloniza o que é federal, estadual e municipal com incidências as mais diversas nas artes, na pesquisa, na saúde e na clínica com seus prêmios, excitações e “saudáveis motivações”. Sobretudo é um fluxo de jogo metaestável espraiado na tessitura subjetiva. Nesse jogo de interferências estéticas – pode haver uma espécie de “guerrilha contra nós mesmos” (Luiz Orlandi) na esfera pública que não é sinônimo de estatal – há uma constituição em tensão que enreda saltos ínfimos e decisivos, mas, sobretudo reversíveis e difíceis..
QUESTÃO: O sensacional e o modo-empresa-em-mim nas interferências e intervenções  
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Há um problema recorrente: A distinção altamente hierarquizada entre a área ou terreno da ciência como um bloco (sério e de valor) apartado da chamada área ou setor da arte-cultura que seria outro bloco ligado à fruição. Uma departamentalização, setorização da dita categoria de “produtos artísticos e culturais”.
As experiências estéticas, as experiências com as artes produzem pensamento, são operadores de pesquisa e produção de pensamento. Não se trata de diversão, prazer, lazer ou mesmo de montar uma bienal de arte sociológica que “reflete sobre[3]”. Podem auxiliar interferências que possam produzir despiramidalização, riso e humor – não ironizar ou desqualificar olhando desde cima. Ou ainda o problema da diversão como narcótico[4]. Frequentemente certos espaços ligados as artes são uma espécie de Disneylândia. Não se trata de “fruição, divertimento e prazer, essas doenças e narcóticos dos nossos tempos” diz D.H. Lawrence em O amante de Lady Chatterley. 
QUESTÃO – SEÇÃO DA CIÊNCIA, SETOR DA ARTE-CULTURA (conceito reacionário), diversão e outras setorizações do bom senso-senso comum.
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Na sequencia apresentarei alguns exemplares, na forma de notas, de interferências-intervenções – que são ao mesmo tempo formação, pesquisa e produção de conhecimento compartilhado, bem como questões que as enredam.  Algumas produzem pensamento e pedem tempos dilatados, às vezes, muita coisa se dá longe e fora das exigências burocráticas de pesquisa que prestam contas à CAPES, FAPESP.. (Leon Kossovicth).
Nas interferências não há necessidade de total compreensãoHá outros níveis que você carrega e que lhe carregam sem compreender muito bem.. Interferência é produção de subjetividade – comentar “do gênio da espécie” aforismo de Nietzsche acerca de um conhecimento vivo que não passa necessariamente pelo “espelho da consciência”. Interessa um rigor nas ligações e montagens das interferências, curadorias coletivas, criar um campo de gestão e gestação coletiva, espaços para fazer e desdobrar juntos ideias, mixá-las e ou recombiná-las. Um exemplo, interferência CABEZA DISPENSA, vídeo no youtube como o nome: “reinauguração do Laboratório de Sensibilidades”. Quais elementos foram recombinados? Ligia Pape, divisor, Vera Mantero, “vamos sentir falta de tudo aquilo”.. tínhamos precariedades – TNT, mas não tínhamos o lençol branco da Ligia – , problemas interessantes como a demanda contemporânea que tudo seja translúcido, nada de opacidade, cabeças..bonecas.. Quais objetos foram tirados das cabeças.. cruzes, carros, dinheiro, minhocas retiradas de umas cabeça e colocadas em outras, uma mini cabeça de Barbie (retirada com uma pinça), duas cabeças lavadas por dentro com sabão.. “dizpensa” a cabeça, raspar para abrir..espaço.. Também as manifestações acéfalas, sem um líder ou ‘o cabeça’ guiando.. Foi um trabalho feito no decurso de um tempo.. Foi também um despacho anti-cabeça-lotada (não quer dizer contra a cabeça, foi um despacho em favor de pensar), dentro da universidade.. Interferência no pático (sensações, atmosferas, ambiências, percepções desfocadas) entendido como não discursivo, que joga com subjetividades absorvedoras (Guattari), com o que é dado de imediato em sua complexidade. Guattari diz que o: “paradoxo consiste no fato de que a subjetividade pática tende a ser constantemente evacuada das relações de discursividade, mas é essencialmente na subjetividade pática que os operadores discursivos se fundam.” In GUATTARI, FELIX. Caosmose – um novo paradigma estético. 1992. p.39.  Tem uma polinização..Uma “multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica dos conjuntos bem circunscritos” GUATTARI, F. Da produção da subjetividade, inédito, 1990. QUESTÃO – A “COMPREENSÃO É UM DOS NÍVEIS DE LEITURA”.
Interferência e produção de pensamento pedem um “para nada” que parece insuportável na ambiência universitária ou dos serviços. Pedem que se faça um exercício, uma tentativa  –  experiências de des-astre, de perder o astro, não se trata das chamadas “experiências exitosas” demasiadamente predeterminadas – , isso envolve agenciamentos complexos, experimentações sem garantias, não necessariamente um projeto de sucesso com suas intencionalidades.. pede talvez uma leveza e inteligência de outra ordem que não compõem com o arrivismo e a meritocracia – ao contrário, até os desinvestem e perturbam –  ela pode implicar uma gratuidade que não se inscreve na dialética da comunicação ou da finalidade.. um jogo esvaziado precisamente da finalidade..uma espécie de ‘para nada’ que não retira nada a intensidade. Um exemplar: Interferência em uma aula, um auditório foi interditado todos ficaram fora, as cadeiras foram empilhadas, livros foram congelados dentro de enormes barras de gelo (era possível vê-los por fora, inclusive uma revista mente e cérebro), baldes de areia, um rebanho pastando foi projeto o tempo todo em que circulávamos pelos espaços (o auditório estava com pouca luz), um homem chafurdava no chão em uma espécie e chiqueirinho tão feito de jornais quanto ele.. duas moças dançavam e não cansavam de cortar e ajustar os cabelos.. outro passeava ao léu, de sunga.. sons de bocas e gemidos, murmúrios. Houve sustos,  não houve conversa ao final.. QUESTÃO – UMA INTERFERÊNCIA PARA NADA pode até produzir pensamento. Trata-se paradoxalmente de um trabalho e desobra (não fazer obra), nada de sucesso, convocar sentimentos ou fazer analogias. Também nada de: “distraídos venceremos” (Leminski) – não se trata de vencer ou “chegar lá” – é, sobretudo, “’falhar, falhar de novo, falhar melhor” (Beckett).
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Fala-se muito em linguagem artística e expressiva, linguagem do corpo, cinematográfica, linguagem das artes, verbais e não, linguagem cênica, linguagem corporal, outra linguagem..e aí vai..para muitos não há arte fora da linguagem e ela foi se tornando  um ideologema ou uma espécie de ídolo ideológico incontornável para pensar as artes. E nisso haveria um certo imperialismo da linguagem problematizado por autores como Nietzsche, Deligny, Deleuze, e, para eles, interessa forçar a linguagem até um limite, limite que separa a linguagem da animalidade, do grito, do canto, levar a linguagem a esse limite que separa o homem do animal. (Pelbart) Será que a própria ideia de linguagem não poderia ser uma limitação? Será que interessa nas artes, na universidade, nas pesquisas, na aprendizagem os excessos do querer, da vontade consciente cujo combustível frequentemente é a linguagem? O trabalho com as artes na universidade, nos serviços  (e fora deles) não seria então uma exploração das intensidades puras, ali onde é preciso fazer buracos na linguagem, já que as palavras carecem de aberturas, de “desligamento” que vem de uma onda de fundo própria as artes? QUESTÃO – IDOLO IDEOLÓGICO CHAMADO LINGUAGEM DAS ARTES.
O riso. Imprimir as páginas iniciais dos facebooks de todo mundo do grupo, do equipamento, daquela parte do campus, de vários, eram inscrições institucionais e de poder distintas, estudantes, professores, tios, vizinhos, diretora, gentes de dentro e de fora. Uma coisa é na rede da internet – outra é materializar em papel a rede (que sempre pode mudar, ser alterada).  É remontar a rede, alterá-la nas paredes ao longo de escadarias, corredores, ligando os dados e fotos de cada página impressa do facebook com linhas de lã. Entre vários trechos das linhas de lã fragmentos da paixão segundo G.H acerca do inumano, das ondas hertzianas e ligações. Problematizações: Publico e privado já estão reconfigurados hoje.. já estão.. e ali havia uma nota a mais..uma questão viva, uma experiência produzida e acompanhada nas paredes por duas semanas (produziu humor, pudor, embaraço e outras conexões), cultivo de sensações, pensamentos que interfere nas percepções habituais, produz percepções, visões em lugares inesperados, um condensado de sensações. Alguns sempre poderiam achar estranho, exótico ou ter uma gavetinha para classificar isso na normopatia cotidiana  – às vezes o estranho é que ninguém estranhe mais certas coisas do dia a dia ou que o  “mais espantoso é que o espantoso não espanta mais ninguém” (Kafka). Há muitos amortecedores, a “linguagem” nas artes pode ser um deles… Também está em jogo o riso e humor. Interferência pode compor com o humor, pode produzir humor (não interessa a pose da ironia). Na série 19 acerca do Humor e arredores em Lógica do Sentido.(…) interferência para aterrar, rir, é preciso saber “descer” – o humor, contra a ironia socrática ou a técnica da ascensão. Certas pesquisas e pesquisadores querem subir, querem luz, tudo muito elevado. Interferência para possibilitar uma descida aos corpos.. sujidade da vida.. Quando der, até o fundo dos corpos e ao sem-fundo de suas misturas (…) QUESTÃO – INTERFERÊNCIA DE RISO E HUMOR (despiramidalização) não interessa a pose da ironia.
Imagens-Interferências expostas no caminho. Um atlas anatômico é uma produção estética e ética, politicamente determinada. Você encontra uma imagem assim… de Walmor Correa.. pensar com ela é uma interferência no jogo da chamada realidade cientifica e da saúde.. Um atlas anatômico parece algo neutro e útil, ao mesmo tempo ele NÃO É A REALIDADE de um corpo. É PRODUÇÃO DE UMA certa REALIDADE operando com um modelo de corpo.  E ela não é sem direção e ou efeitos ético-clínicos, e, implica as terapêuticas. Não é um corpo no atlas anatômico, é o corpo estilo greco-romano dos desenhos da biomedicina, obviamente uma representação que também nos auxilia e leva em certa direção.. As imagens do artista Walmor Correa apresentam minuciosos mapas anatômicos com um grau enorme de detalhamento, utilizando os signos e verdades da anatomia para criar uma imagem verosímil, isto é, plausível, com efeito de verdade, e sempre temos isso, tão-somente o verosímil – “que parece verdadeiro”, que produz efeito de verdade. Walmor correia produz um mapa anatômico de uma sereia com os órgãos descritos em detalhe, descrições de um bebê no útero, a panturrilha descrita e aberta do curupira.. (ver na rede imagens de Walmor Correa. ). Com essas interferências podemos pensar: “Que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? que forças em mim me fazem expressar assim o que “estou pensando”? Que forças já me dominam? Com que forças me alio?”  (…) Frases de Luiz Orlandi transcritas do vídeo Orlandi e Giacóia. Acesso em 18/03/2014, Disponível in: http://www.youtube.com/watch?v=Hem6s9cvJKI

QUESTÃO – DA VERDADE, DO VEROSIMIL DA CIÊNCIA E AFINS

Em vários âmbitos. Uma enfermeira que trabalha com captação e transplantes de órgãos..(imunitas, comunitas, autoimunitas). A produção de um kit para oficinas chamado “corpo, recombinação”. São pequenos vídeos quase asignicos (são mais variações e produção de micropercepções,  não mensagens). Animações ou fragmentos de filmes que podem produzir pensamento. Enunciar ou mostrar.. Um pequeno vídeo de 5 minutos “dimensões do diálogo” de Jan Svankmajer, animador Tcheco. Vídeo que é uma pintura de Arcimboldo, pintor do século XVI em movimento..um concepção de corpo (Concepção contemporânea do corpo?), corpo como todo aberto (distinta da concepção romântica e liberal de corpo como um todo coeso…) Somos todos constituídos de peças e pedaços ajuntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós e nós mesmos quanto entre nós e outrem. Montaigne, M. Ensaios. São Paulo, Nova Cultural. (Os Pensadores). 1987. pp. 159-161.Outro exemplar: Na universidade, um homúnculo foi montado, todo feito de diferentes frutas e legumes ao lado de um espaço destinados ao refeitório da UNIFESP BS, um homúnculo em pé (o coração era um sandwisch do Macdonald), ao lado dele límpido estava um manequim de loja de roupas.. ao longo de alguns dias o ser de frutas e legumes se degradava a olhos vistos..Uma pintura de Arcimboldo do século XVI, uma problematização  com a máxima de Montaigne. Um incômodo que instiga a pensar ao lado do refeitório. Agora temos rodas de conversa para pensar juntos, por exemplo, essa noção contemporânea e antiga de um corpo, desregulado, proliferante, recombinante,  talvez finito-ilimitado,  aberto. Isso pode ajudar pensar inclusive no câncer e nas células tronco (G.B)[5]: “Tendo a fazer um paralelo, talvez um pouco apressado. Qual é o nosso maior sofrimento, nossa maior ameaça na medicina hoje? O câncer, apesar de que se diagnostica mais rapidamente e o índice de cura é maior (…). Mas qual é nesse momento a nossa maior esperança? As células tronco. Resulta que o câncer e as células tronco tem o mesmo princípio que é a proliferação celular, só que uma tem uma proliferação celular incoercível, indirigível que acaba com o corpo e a outra tem uma proliferação que se adapta ao tecido  lesionado para reconstituí-lo. Então esses dois tipos de células e de funcionamento celular, essas duas são parte de um corpo (…) elas não obedecem aos tecidos, aos órgãos, aos sistemas, a todo o mapa organizativo do organismo, elas funcionam por conta própria. ”
Essa ideia de partes que podem funcionar por conta própria em distintas composições, ressoa com os corpos errantes, abertos, desconectados do conjunto, bem como podem se relacionar com as produções biotecnológicas, os transplantes de órgãos e órgãos intrusos.

QUESTÃO – DISTINTOS MATERIAIS E TEMPOS DE UM CORPO ABERTO (NÃO UM TODO COESO E HARMONICO)

Em que medida as interferências – que exigem um rigor e precisão – deslocam percepções, micropercepções…Depois de um semestre em que discutíamos um certo apagamento da experiência do “cuidado humanista” esse olhar ao sofrimento individual na clínica (isso sem demonizar ou dicotomizar)..um grupo trabalhou com precisão. Foram penduradas por fios na entrada do saguão quatro letras enormes, em três dimensões, cada uma tinham uma boa espessura e mais ou menos dois metros cada, eram em cartão, pintadas de cor preta. Estava lá impressionante, um D bem grande, depois E,U essas duas letras cravejados com facas (muito bem esculpidas em cartão e salpicadas de vermelho sangue) e depois a letra S.. DEUS..o EU do meio de DEUS estava esfaqueado e sangrando!!
QUESTÃO – DESLOCAMENTO DE PERCEPÇÕES E PRODUÇÃO DE MICROPERCEPÇÕES
***
Uma espécie de “panfletagem não apenas voluntarista”.. também por contágios, alguns talvez mais previsíveis e outros menos..Nas aulas do mestrado profissional, no LEPTS, na residência interprofissional.. (pode ecoar em outas ambiências) blog do L.S. Experiências com folhas portáteis quase panfleto, uma folha impressa frente e verso. São recolhas montagens entorno de uma noção, interferências montadas ao modo de pequenos mosaicos, elas precisam de uma sensação de começo – precisam de início desdobrar algo eminentemente voltado para as práticas e ou que faça chiado no modo habitual de pensar. Tem uma dessas folhas (que está em obras) acerca da noção de competência que começará assim: “a invenção da ideia de competência tem como alvo criar os incompetentes”. É uma frase da Marilena Chauí que ajuda a pensar. Outra se chama: Análise da oferta precede a análise da demanda; Comunitas, imunitas e saúde frágil; Contemporâneo é aquele que deserta a cegueira da luz da época atual; Clínica médica da doença, do doente e outra clínica se constela com possibilidades inauditas, a noção de recognição, a noção de comum, e, e, e.. Estão em obras uma folha-interferência-portátil-panfleto acerca da noção de “normatividade vital” –  conceito do Canguilhem que desloca o que em geral se pensa acerca do normal em saúde e as normas. São experiências com leituras breves, e, a sugestão é que primeiro se leia em silêncio com o lápis ou caneta na mão, anotando, pondo interrogações, sublinhando, isso leva pouco tempo e pede intensa concentração, acontece em rodas, com estagiários, técnicos da prefeitura, grupo de pesquisa, em sala de aula, em que somente após esse momento, se faz uma leitura em voz alta e aí a palavra circula. Em geral pontos são destacados por interesse, valor, objeção, incidência nas práticas e etc.. Diria que são fragmentos de textos anzóis eles ajudam a pescar questões para conversar com o que está se passando nos vários espaços, serviços, na vida mais amplamente.. Naquele momento todos leem inclusive os que supostamente coordenam a reunião, nisso há uma espécie de imersão coletiva, uma “experiência sob nós mesmos” uma “guerrilha contra nós mesmos”, ou melhor, “a guerrilha contra as potências maiúsculas – sejam automatismos, partidarismos, missionarismos laicos ou quaisquer proeminências transcendentes – que nos invadem, que nos habitam ou que nos habilitam na sacanagem muito contemporânea de certo servilismo.” (Luiz Orlandi)
QUESTÃO – PEQUENAS GUERRILHAS contra nós mesmos COM MATERIAIS CURTOS E INTENSOS.  Folha-interferência-portátil-panfleto.
LEMBRAR  DESSE PONTO. Uma interferência no jogo pode ser a produção de uma noção que não dominamos, só conhecemos parcialmente, sabemos lacunarmente do que se trata, e, ainda queremos fazer e pensar com ela, por exemplo, a noção de CLÍNICA COMUM que emergiu de um coletivo de pesquisa, que gerou artigos, um livro e que somente agora começamos a pensar que a clínica comum não é apenas algo que é o almejado como a clínica interessante na saúde… (AQUI PRECISARIA CONVERSAR MAIS DETIDAMENTE). Em todo caso, a noção continua interferindo no campus, nas pesquisas, nas turmas, em nós (é uma tensão em nós), nos serviços.. na residência..no mestrado profisional, com as secretarias, saúde, assistência..um clínica que pode não se esquivar às complicações do comum. De uma consignia meramente interdisciplinar, instalamos um conceito que AINDA PULSA.
QUESTÃO- PRODUZIR UMA NOÇÃO (Clínica comum) QUE SÓ DEU UM PASSO E CONTINUA..
[1] Antes de tudo uma questão: Qualquer interferência ganha força se emergir de um problema muito concreto. O problema é o fio condutor. Isso pede uma certa imersão. Também é necessário ler, estudar e um conjunto de materiais, ideias, textos, imagens para roubar questões.
[2] Acerca dessa questão distinção proposta por Inforsato (2010) ver a tese “Constelações clínicas e políticas do comum” .
[3] A filosofia, a psicologia, a sociologia, a saúde coletiva não ocupam um nível superior aos outros saberes, elas são do mesmo nível. Portanto, não há reflexão sobre, o que há é pensamento a partir, pensamento com. Há criação de conhecimentos – sem a dicotomia sujeito e objeto – ou ainda criação de pensamentos, existe criação de conhecimento não somente nas ciências, mas nos outros saberes. Há pensamento em várias formas de saber, poético, literário, jurídicos. Não é só na ciência que você encontra criação de pensamento. As interferências estéticas estão no mesmo nível e podem produzir pensamentos.
[4] (…) “homens” sem Deus superavam o tédio pelo prazer e o brilho. Divertimento! A sutil doença dos novos tempos (…) as pessoas com os estômagos colados umas às outras nas noites quentes, os gelados para refrescar, tudo era um narcótico. Todos queriam a mesma coisa: droga. A água lenta era droga; o sol era droga; o Jazz, os cigarros, os cocktails, os gelados, os vermutes, tudo droga.  Trecho de D.H. Lawrence, O amante de Lady Chatterley.
[5]  BAREMBLITT, G. Entrevista em vídeo Acerca de Deleuze e Guattari. Trecho transcrito. TV –PUC- Minas. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=8FgLBsTwoJA.Acesso em 02/01/2014.

Fonte:

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

CRONOGRAMA: ENCONTROS DO COLETIVO DE PESQUISA EM 2016



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09 A 11/03 - RIO DE JANEIRO
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